Expedição explora áreas do Atlântico Sul nunca visitadas por
pesquisadores. Iniciativa promove a descoberta de rochas continentais e
de jardins de corais nas profundezas do oceano
Por: Marina Sequinel
O submersível Shinkai
6.500, utilizado durante a Expedição Iata-Piuna, é um dos poucos
equipamentos do mundo capaz de levar até três tripulantes a 6 mil metros
abaixo da superfície do oceano. (foto: Divulgação/Diário de Bordo)
A Expedição Iata-Piuna, primeira exploração da marg
em continental brasileira realizada com o auxílio de um submarino tripulado, levou à observação de rochas continentais
em uma montanha no fundo do oceano Atlântico, a aproximadamente 1,5 mil km do litoral do país. A novidade permite supor que,
em determinado momento da história geológica desse oceano, uma porção de área continental tenha se desprendido e submergido.
Realizada entre os dias 9 e 27 de maio deste ano, o objetivo da
expedição era fazer estudos geológicos e biológicos no fundo da Bacia de
Santos, na Elevação do Rio Grande e na chamada Dorsal de São Paulo.
A Elevação do Rio Grande é uma estrutura topográfica localizada entre
a costa do sul do Brasil e a cordilheira meso-oceânica. A Dorsal de São
Paulo, por sua vez, é uma cadeia montanhosa situada na marg
em continental brasileira, a oeste da Elevação do Rio Grande.
A Expedição Iata-Piuna resultou de uma associação entre o Brasil e o
Japão e contou com a participação de pesquisadores de diversas
universidades e centros de pesquisa do país, como a Universidade do Vale
do Itajaí (Univali), de Santa Catarina.
Em exploração conjunta da margem continental brasileira, cientistas brasileiros e japoneses descobriram rochas continentais em uma montanha situada no fundo do oceano Atlântico. (foto: Divulgação/Diário de Bordo.)
A orig
em geológica da estrutura rochosa avistada t
em
suscitado discussões entre pesquisadores envolvidos no projeto. Segundo
o oceanógrafo José Angel Alvarez Perez, coordenador do Grupo de Estudos
Pesqueiros da Univali, ainda não é possível afirmar se o material
surgiu no período de separação da Pangeia, continente único da Terra há
200 milhões de anos.
“Observamos formações rochosas grandes, mas, infelizmente, não foi possível coletar fragmentos para análise
em laboratório”, relata Perez. “Como só avistamos a estrutura, t
emos apenas evidência de que pode haver um pedaço de continente no fundo do mar”, pondera.
Jardim de corais
Para os mergulhos
em águas profundas, os pesquisadores utilizaram o submersível Shinkai 6.500, que pesa 27 toneladas, t
em paredes de titânio com 7 cm de espessura para resistir à pressão da água e capacidade para três tripulantes.
O equipamento pode chegar a 6 mil metros abaixo da superfície do
oceano, produzir imagens das áreas analisadas e coletar organismos,
água, rochas e solo marinho por meio de braços robotizados e outros
instrumentos.
Além de conhecer as rochas continentais, essa tecnologia permitiu aos
pesquisadores avistar ’jardins de corais‘, uma amostra da
biodiversidade marinha na Elevação do Rio Grande. Perez conta que já se
suspeitava da existência de uma ampla comunidade de corais na área, mas
isso só se confirmou durante a expedição.
“Esses corais de água fria são de grande beleza”, descreve o
oceanógrafo da Univali, um dos tripulantes do Shinkai 6.500 na ocasião
do mergulho. O ambiente, a cerca de 1,2 mil metros de profundidade, é
sustentado pela corrente marinha profunda, que carreia alimento para os
corais e para as espécies a eles associadas (peixes, lagostas,
caranguejos, esponjas e ouriços-do-mar).
- Jardim de corais na Elevação do Rio Grande. (foto: Divulgação/Diário de Bordo.)
De acordo com o pesquisador, os mergulhos, que começavam de manhã b
em cedo, duravam
em média oito horas. Todas as amostras coletadas durante essas descidas exploratórias estão agora sendo analisadas
em laboratórios. Os resultados dev
em estar disponíveis no ano que v
em.
A experiência dos tripulantes da Expedição Iata-Piuna – expressão que,
em tupi-guarani, quer dizer ‘navegando
em águas profundas e escuras’ – está registrada
em um
diário de bordo on-line.
Marina Sequinel
Fonte: Ciência Hoje On-line/ PR